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domingo, 21 de julho de 2013

O ex-libris da Biblioteca do Clube Português



Os ex-libris são etiquetas que se costumam colar na parte interior das encadernações e que querem significar que o livro pertence à pessoa que nelas tem o nome. Inventaram-se para substituir o carimbo, que sempre danificam e desvalorizam o volume.

A quantos séculos remontam sua invenção? Não se sabe.

O que, porém, todos sabem é que os antigos costumavam imprimir seu nome, brasão, monograma ou qualquer distintivo particular, a ouro ou a fogo, no rosto das encadernações.  O ex-libris veio substituí-lo e tornou-se dentro em pouco uma coisa linda e artística. Muitas pessoas, no mundo todo, colecionam ex-libris.

O ex-libris da Biblioteca Portuguesa de São Paulo, do Clube Português, foi idealizado por Antônio D’Almeida D’Eça, que durante alguns anos foi o bibliotecário titular, e desenhado por José Wasth Rodrigues. O candieiro da gravura é semelhante ao de Roque Gameiro para a capa do livro Cartas de Camilo Castelo Branco.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

As “diligências por trilhos de ferro” - por Raimundo Menezes




 E os primeiros bondes, quando aparecem aqui em São Paulo?

Em 1871,  ao engenheiro Nicolau Rodrigo Leite era dada a concessão, por 50 anos, para o “estabelecimento de uma linha de diligencias por trilho de ferro entre o Largo do Carmo e a Estação Inglesa”. Aquele engenheiro, porém, não aguentou com as despesas, e transferiu a concessão à Companhia Carris de Ferro de São Paulo, organizada no Rio de Janeiro. Só em 1887 foi inaugurada a linha do Brás, “partindo da estação seis bondes enfileirados até o ponto final, que era a gare do Norte”. Instalando-se, depois, outras linhas: uma, do Parque Dom Pedro II, passando pela Rua do Glicério, ia bater no Largo do Cambuci, e diversas mais, ligando vários pontos da cidade.

As “diligências por trilho de ferro” obtiveram grande êxito e foram muito gabadas pela população, na época.

O serviço de bondes, propriamente ditos, puxados a burro, só se iniciou a dois de fevereiro de 1872, na presidência de João Teodoro. Eram minúsculos, muito estreitos e tinham comumente três bancos. Os maiores contavam com cinco.

Nos últimos tempos da Monarquia, trafegavam 34 carros de passageiros e nove de carga. Havia linhas para a Liberdade, Moóca, Brás, Marco da Meia Légua, Luz, Santa Cecília e Consolação.

Os carros abrangiam sete ou oito bancos, e eram puxados por um ou dois burros. “Os cocheiros, pródigos em chicotadas, cujos golpes ruidosamente se repartiam entre os animais e o anteparo metálico por trás do qual o funcionário se abrigava. Os condutores, não menos pródigos em longos e chorosos toques de apito, que era o instrumento que então desempenhava as funções premonitórias hoje atribuídas às campainhas nos bondes e as sereias nos carros de assistência”.

A empresa era a Companhia Viação Paulista, cujas iniciais CVP, pintadas nos carros, eram assim, jocosamente, interpretadas pelo povo: “Cada vez pior”. E, de fato, não se pode dizer que o serviço fosse uma maravilha. Tinha suas falhas como em todos os tempos. De vez em quando, um daqueles morosíssimos veículos pulava da linha. Juntava gente para ver o desastre. E era um trabalhão para pô-lo na linha.




Naqueles tão ditosos tempos, comentava um cronista de então, os grandes passeios que podiam se fazer de bonde eram dois, e tinham apreciadores habituais. Além disso, aquilo era uma maravilha para quem vinha do interior tomar seu banhozinho de civilização na capital...

A primeira dessas excursões era o Marco da Meia Légua, ali assim pelos confins do Belenzinho, na Estrada da Penha, atualmente transformada em avenida com iluminação e calçamento. O Marco era uma espécie de recanto campestre, fora do bulício da cidade. Havia por lá umas chácaras, numa das quais residia um alemão pacato bonachão, o João Boemer. Tinha ele uma fábrica de cerveja, com um lugar franqueado à sua freguesia, por sinal bem numerosa.

A cerveja de fabricação do simpático João Boemer chamava-se “Cerveja da Penha” e custava 500 réis a garrafa. Que maravilha! Mas pensam os leitores que a bebida era um primor? Qual... Era uma garapa azeda como o quê? A turma bebia porque não havia outro jeito. A estrangeira ou a do Rio – marcas Pá, Viena, Franziskaner etc – era vendida na praça a um preço exorbitante. Só os ricos podiam gozá-la: chegava a custa 1$500 a garrafa!

O outro passeio era a “Volta da Consolação”. Assim se chamava o circuito que o bondezinho de burro fazia pela Rua D. Maria Antônia, indo da Rua Veridiana para a da Consolação, por onde regressava à cidade, e vice-versa.

A Rua D. Maria Antônia – descrevem-na os que a viram – era um bonito pedaço de estrada barrenta, ornada de vegetação exuberante e barranqueiras pitorescas. De lá se avistava a cidade, ao longe. Vejam que distância... Ao longe, sim, pois que nada ainda exista de Vila Buarque, como também não havia sombra de Higienópolis, nem a rede de ruas que se estende entre as igrejas de Santa Cecília e do Coração de Jesus.

Na Rua D. Veridiana, um prédio chamava a atenção, apontado como o mais bonito de São Paulo: era a mansão habitada por D. Veridiana Prado, paulista da velha estirpe, muito querida e apreciada pelos seus dotes morais.

Na Rua da Consolação, mais ou menos da igreja para cima, não havia calçamento, e era toda ela enxameada de casinholas miseráveis, que iam rareando a proporção que a gente se aproximava do Cemitério da Consolação, que ficava completamente fora do perímetro urbano. Aquilo por ali já era mato. Basta dizer que, ao redor do campo santo, havia uns capões densos e cerrados, de causar medo, onde se escondiam bichos e onde o paulistano, nos dias de domingo, ia caçar perdizes...

Depois do cemitério, estendia-se a velha Estrada de Pinheiros, verdadeiro sertão bruto! Quem se arriscasse por ali tinha de ir bem armado. Do contrário, corria perigo. De noite então, nem é bom falar. Não havia valentão que se atrevesse. A coisa era de por os cabelos em pé.


Fonte: São Paulo dos nossos avós, de Raimundo de Menezes. Edição Saraiva, 1969.

Imprensa de antigamente – notas e noticiário de um jornal do interior de São Paulo em 1877 e 1878


Papagaio

“Desapareceu do abaixo assinado, no dia 24 do mês corrente, um papagaio grande e muito manso. Desconfia-se que voasse para algum quintal e que esteja oculto, pelo que pede-se a entrega do mesmo sob pena de responsabilidade para quem o tiver ocultado contra vontade de seu dono”.

Escravo fugido

“O escravo Gregório, pardo, idade de 30 a 32 anos, altura mais que regular, corpo reforçado, fala descansada, bons dentes, olhos grandes e sanguíneos, quando quer movê-los depressa, porém seu natural é pesado, pouca barba, ocupa-se em roça, porém faz qualquer serviço. Gosta de lidar com animais, com cães, caçar com espingarda e também gosta de batuque”.

Casa do Doutor

“Pede-se a atenção da autoridade policial para algazarra que fazem todas as noites, no canto da casa do Dr. Gonzaga, a forra Maria Rita e as escravas Balbina e Teodora”.



Fonte: extraído do jornal Portugália, 1/8/1954, p.7. Acervo Biblioteca Portuguesa de S. Paulo.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A esgrima e o Clube Português


            Em julho de 1929, o curso de esgrima foi instituído no Clube Português juntamente com a inauguração da Biblioteca. A partir de 1929, foram dinamizadas as atividades associativas da entidade. Impulsionadas pela diretoria do biênio 1929-31, tendo como presidente Antonino Sampaio, vice-presidente Júlio da Costa Cabral, 1º tesoureiro João Vaz Fontoura, 2º secretário Júlio Ferreira de Mesquita, 1º secretário João Baptista de Almeida e 2º secretário Antônio D’Almeida D’Eça, também era o diretor cultural.
            Em agosto de 1929, foi inaugurada a Sala de Armas, uma das melhores da Pauliceia. Neste mesmo mês, os alunos estreantes disputaram um campeonato interno nas dependências do Clube, à Av. São João, 126.

Alunos do curso de esgrima, tendo ao centro o instrutor José Pereira Botânico
            A Sala de Armas contava com banheiros e vestiários. As aulas aconteciam aos sábados e domingos, das 20 horas às 23 horas. O instrutor principal e mestre era José Pereira Botânico.
           As provas do Campeonato Estadual de Esgrima de 1929, promovido pela Federação Paulista, teve princípio na Sala de Armas do Clube Português em outubro daquele ano. O torneio realizado no salão nobre e decorreu animado, assistido por grande número de associados, familiares e convidados.
           Os inscritos, Francisco Corrêa, Álvaro de Almeida, Rogério Garcia, Milton Corrêa, Oscar Teixeira e Augusto Courrege, disputaram a taça “Initium”, oferecida pelo instrutor Botânico, e mais duas medalhas destinadas, pela diretoria, aos 1º e 2º colocados.
           O júri foi presidido por José Pereira Botânico, Frederico Moreira, Eugênio de Mello, E. Martinelli, Miguel Morano e Assis Naban, tendo apresentado o seguinte resultado:

1º colocado: Oscar Teixeira, 5 vitórias e 1 derrota.
2º colocado: Rogério Garcia, 4 vitórias e 2 derrotas.
3º colocado: Alfredo Teixeira, 3 vitórias e 1 derrota.
4º colocado: F. Caielli, 2 vitórias e 4 derrotas.
5º colocado: Álvaro de Almeida, 2 vitórias e 4 derrotas.
6º colocado: Milton Corrêa, 1 vitória e 4 derrotas.
Alunos na Sala de Armas

            A aluna Leonor Margarido, grande destaque feminino das alunas (ver postagem anterior), em maio de 1931, aspirando maiores oportunidades, transferiu-se para o Clube Atlético Tietê. Costumava enfrentar os adversários do sexo forte e vencer, sempre com magnífica atuação.
          Em agosto de 1933, a secção de esgrima do Clube Português comemorou seu 4º aniversário. Realizou-se um torneio entre esgrimistas do Clube Itálico e os portugueses. A vitória coube aos jogadores lusos. Tudo ocorreu com o máximo cavalheirismo.
           Em quatro anos o Clube possuía elevado número de atiradores e afeiçoados ao nobre esporte, sendo a Sala de Armas considera uma das melhores da capital paulista. A partir de 1933, a direção de esgrima esteve confiada ao distinto esportista Carlos F. Mesquita. Os atiradores do Clube participaram de vários torneios patrocinados pela Federação Paulista de Esgrima, nos quais obtiveram colocações distintas e excelentes predicados.

Fotografias: Acervo Biblioteca Clube Português de São Paulo

A esgrimista Leonor Margarido

Leonor Margarido (ao centro) fez parte do grupo de esgrimistas do Clube Português

            O Clube Português de São Paulo inaugurou sua sala de armas e as aulas de esgrima em agosto/1929. Dentre as alunas do curso, uma se destacou, Maria Leonor Margarido, que também cantava no Orfeão do Clube.
            Devido a sua dedicação e talento, em 1936, Leonor Margarido foi à primeira campeã brasileira de Florete quando teve início os Campeonatos Brasileiros de Esgrima para o sexo feminino.
            Nascida na capital paulista em 1914, Leonor foi estudante do Mackenzie College no Curso Comercial. Participou e venceu vários torneios de esgrima em São Paulo.
            Segundo nos informa o site www.ahistoria.com.br/esgrima/, este esporte é desenvolvido a partir dos duelos, dividido em três classes de acordo com as armas usadas: florete, espada e sabre. Os esgrimistas usam vestuário branco almofadado e uma máscara para proteger o rosto. O objetivo de um assalto – que dura um tempo determinado – é conseguir um “toque” com a arma numa área-alvo particular do corpo do adversário. Com a florete e a espada só pode ser usada a ponta da arma; com o sabre, o alvo são o tronco para a florete, todo o corpo para a espada, é o corpo, os braços e a cabeça para o sabre.
             A esgrima é um esporte olímpico e também a arte marcial mais antiga do Ocidente.
            O florete tem um peso máximo de 500 g e sua extensão não pode exceder 110 cm. A lâmina é de aço e pode chegar a 90 cm. O floretista deve tentar atingir, com a ponta da arma, o tronco do adversário. O atirador deve tentar atingir o corpo do adversário, da cintura para cima, com qualquer parte da lâmina. A principal condição para esgrimir corretamente é tocar o adversário sem ser tocado, através de movimentos ordenados.
            O interesse de Leonor pela esgrima surgiu através do incentivo de seus irmãos, como ela contou ao repórter do jornal Diário da Noite, em dezembro de 1932: 
Pratico esgrima desde que fui inscrita na Federação Paulista de Esgrima há quatro anos. O meu começo foi como todos os começos no gênero. A princípio todos os esgrimistas exercitam-se para passar o tempo e só começam a dominar a arma escolhida quando se apaixonam pela arte rara, conforme o que aconteceu comigo. E para mostrar minha predileção pela esgrima basta dize que, apesar de também praticar natação e correr, nunca me deixei influenciar por estes esportes a ponto de elegê-los como os do meu gosto principal. Meus três irmãos Ângelo, Antônio e Luiz são esportistas. Praticam a natação, o remo e outros esportes, tendo sido eles meus primeiros mestres. Esse fato e a falta de oposição dos meus pais, naturalmente, é o que me valeram para não ficar sujeita ao preconceito de que a mulher deve ser vedada a prática dos esportes por amor de sua feminilidade”.


Leonor Margarido ao centro da imagem
Fotos: Acervo Biblioteca Clube Português de São Paulo

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Biblioteca Portuguesa de São Paulo é considerada de utilidade pública



             Essa foi a notícia sensação publicada no Diário da Noite, de 12/1/1934. A capital bandeirante passou a contar desde então (e atualmente também) com mais uma biblioteca de rico acervo:
            "A Biblioteca Portuguesa de São Paulo constitui um dos mais expressivos patrimônios da colônia lusitana desta capital. Fundada pelo Clube Português, a que pertence, conta apenas dez anos de existência e numerosas obras raras, de grande valor para estudiosos e bibliófilos. É uma das mais ricas e talvez a mais completa das bibliotecas particulares da capital.
            Não cogitaram seus organizadores de adquirir apenas obras portuguesas.
            Embora a biblioteca possua coleções completas dos maiores autores portugueses, a começar nas trovas e cantares acompanhando, século por século, a expansão do pensamento e das formas literárias em Portugal, os grandes autores estrangeiros encontram-se ali também, em edições, por vezes, ricas e raras. Assim acontece com Cervantes, La Sage, Ariosto, Dante, Petrarca, Rabelais, Ronsard, Shakespeare, cujas as obras se acham reunidas em edições de luxo.
            Em 1930, o Clube Português resolveu tornar pública a frequência da sua rica biblioteca. Depois das 14 às 16 horas, a toda pessoa que quisesse consultar os seus volumes bastaria tomar o elevador do clube, que a conduziria ao 3º andar, onde se encontra instalada a biblioteca.
            A dificuldade de se encontrarem em São Paulo as obras mais recentes dos escritores lusos de renome, bem como as edições de Coimbra, de poetas e cronistas anteriores a 1600, fez com que começasse a frequentar a Biblioteca Portuguesa de S. Paulo elevado números de estudiosos.
            E agora, o governo português, em face do sucesso alcançado e premiando o esforço despendido, acaba de considerar a Biblioteca Portuguesa de São Paulo de utilidade pública.
            E essa designação constitui o melhor prêmio e muito concorrerá para ao desenvolvimento da biblioteca, pois, de acordo com as leis portuguesas, de todas as publicações feitas na antiga metrópole deverá ser enviado um exemplar".

O Grupo Folclórico do Clube Português e a cançonetista Arminda Falcão

Grupo Folclórico do Clube Português com a cançonetista Arminda Falcão ao centro, 1954
            Em 1953, o Clube Português de São Paulo organizou um grupo folclórico. Seria uma segunda formação, pois o primeiro grupo intitulado "Grupo de Danças Regionais" durou de 1932 a 1936.
            A primeira apresentação do Grupo Folclórico aconteceu em 13 de setembro de 1953 no salão nobre do Clube, à Avenida São João, 126.
            O autor de muitas músicas e enredos para o grupo era Mário Gallo, que durante anos a fio foi o chefe da secretaria do Clube Português.
            A jovem Terezinha Zambo era o destaque como acordeonista, Tostes de Carvalho tocava guitarra portuguesa e o cantador era Ildebarto Leão.
             Na foto acima vemos o grupo ladeando a cançonetista Arminda Falcão, importante intérprete das músicas portuguesas no Rádio e na TV de São Paulo.
              Abaixo segue uma pequena biografia da artista publicada na coluna "Fado no Brasil", do jornal Mundo Lusíada, escrita por Thaís Matarazzo:
        Arminda Falcão foi à primeira cantora portuguesa a interpretar as músicas de seu país no Rádio paulista. Suas atividades radiofônicas datam de 1931.
        Nascida em Coimbra em 14/12/1900, veio para o Brasil com sua mãe, D. Julieta Falcão, em 1906, seu pai já estava aqui. Depois, o casal Falcão teve mais duas filhas: Judith e Alice. Em 1920, Arminda casou-se com o advogado Floriano Waldeck e foi residir no Rio de Janeiro, lá nasceram seus dois filhos: Antônio Lúcio e Sérgio. Após sete anos de matrimônio o casamento se dissolveu e Arminda voltou a São Paulo com seus dois rebentos.
         Passou a trabalhar, em 1930, como bilheteira do Cine Rosário, no prédio Martinelli, na Rua São Bento. Dona de uma bonita voz gostava bastante de cantarolar as músicas que aprendia no cinema, no teatro e com os discos da época.
Arminda Falcão e Alice Silva, 1952
       Após cantar durante alguns anos em programas avulsos em emissoras paulistas, afirmava que sua estreia profissional aconteceu somente em fevereiro de 1934, quando o professor e guitarrista português João Fernandes, e sua esposa Inês, estrearam o primeiro programa de Rádio dedicado exclusivamente à canção lusa, era o “Horas Portuguesas”, na Rádio Educadora Paulista. Arminda trabalhou durante diversos anos como intérprete exclusiva de “Horas Portuguesas”.
        Trabalhou ainda nas rádios Educadora, Record e Tupi – aonde foi contratada em 1942 e permaneceu até 1957. Gostava mais do teatro do que do Rádio, atuou em algumas revistas e operetas. Morou por largo tempo na Rua Santa Ifigênia, centro da Pauliceia, juntamente com seus filhos, sua irmã Alice e o sobrinho Alexis. Toda a família sempre cultivou a música clássica e não perdia uma temporada lírica do Theatro Municipal.
          Arminda Falcão também foi compositora, em geral, escrevia as letras e as melodias eram feitas por parceiros, como o músico Waldemar Pipl e o maestro Spartaco Rossi. A gravação da marcha de sua autoria “Alegres raparigas”, de 1945, teve tamanha repercussão em Portugal que foi premiada no Porto, nas festas de São João.
         Durante as décadas de 1940/50 Arminda cantou diversas vezes nas festas e chás dançantes do Clube Português de São Paulo e nas festas juninas da Portuguesa de Desportos, sempre acompanhada do professor João Fernandes, Silva Júnior e Conjunto Guarani. Atuou ao lado de outros colegas nos restaurantes típicos: Adega do Douro, Adega da Mouraria, Marialva, Solar da Alegria e Aviação. Sem contar o sem número de vezes que tomou parte em festas beneficentes da paróquia Nª. Srª. de Fátima, no bairro do Sumaré, e outras instituições religiosas. Sua presença era sucesso garantido, sua alegria refletida no seu repertório alegre e selecionado.
         Em 1949, participou cantando do filme “Quase no céu”, de Oduvaldo Viana, o elenco era formado por artistas da Rádio Tupi como Lolita Rodrigues, Lia de Aguiar e Osny Silva. Aliás, Arminda foi uma das primeiras artistas a aparecer na telinha da TV Tupi durante a sua inauguração em setembro/1950.
          Sua irmã, Alice Silva (contralto), gravou com a mana três discos 78 rotações entre 1948 a 1953. Alice participou de muitos programas lusos no Rádio e na TV da “Terra da Garoa”. As duas irmãs realizaram digressões por todo o Brasil. Arminda registrou cerca de 13 músicas em sete discos de 78 rotações, e o LP “Sucessos de Arminda Falcão”, pela Magisom, 1961. Seu filho, Sérgio Falcão, foi um inspirado compositor popular e cantor de músicas mexicanas, fez muito sucesso.
          Em 1952 o jornal Diário de S. Paulo anunciava: “Arminda Falcão e Alice Silva, as irmãs portuguesas que aparecem em numerosas programações das rádios Tupi-Difusora. Elas acabam de gravar, para a Continental, dois números que estão alcançando sucesso: ‘Romarias’ e ‘Ceifeiras’. Arminda Falcão é um dos valores mais positivos do grande elenco das ‘Associadas’ paulistas”.
          Arminda não fumava nem bebida. Não era supersticiosa, gostava bastante de dormir e foi grande amiga de seus filhos e vovó extremosa. Torcedora do São Paulo Futebol Clube. Gostava imensamente das operetas, seus compositores preferidos: Tchaikowsky e Brahms. Era espírita. Entre os cantores brasileiros apreciava Silvio Caldas, Romeu Feres e Eglê Bittencourt. Era grande fã do cinema, sempre que podia gostava de assistir as fitas de Gary Cooper e Barbara Stanwick.
          Procurava não se ausentar muito de São Paulo, cidade que amava muito, só ia ao Rio para visitar seus amigos e pessoas da família. Em 1973, seu filho Antônio Lúcio faleceu deixando a artista muito triste, já adoentada Arminda Falcão vem a falecer em São Paulo, aos 29 de dezembro de 1974.

Publicado anteriormente em: http://www.mundolusiada.com.br/colunas/fado-no-brasil/fado-no-brasil-arminda-falcao/

ORFEÃO DO CLUBE PORTUGUÊS – segunda parte


    

            A próxima atuação do grupo Orfeão aconteceu em abril de 1933, em Campinas-SP. Foram convidados a realizar um espetáculo beneficente pela comunidade portuguesa daquela cidade. A fama do Orfeão estava correndo pelo interior de São Paulo.
            Seguiram viagem 120 orfeonistas, seus acompanhantes e o maestro Giuseppe Manfredini. Embarcaram no último comboio na estação da Luz na noite de 27 de abril.
            O espetáculo aconteceu no Theatro Municipal de Campinas. Na primeira parte do programa foram executados os hinos do Brasil e Portugal, cantados com muita harmonia. Na segunda parte, figuraram danças, canções, fados, recitativos e cantos, tudo sob a direção da srta. Maria Antônia da Costa. O agrado foi completo, sendo que alguns números foram bisados.
            José Galante, ótimo cantor, e Horácio Rodrigues cantaram lindos fados. A menina Zalir Moraes, declamadora oficial do orfeão, foi bastante elogiada. Albertina Caldas cantou lindamente e foi convidada a se apresentar na Rádio Educadora de Campinas, PRC-9.
            “A segunda parte consistiu em músicas e danças regionais. Levantado o pano, irrompeu na caixa um grupo de rapazes e moças com trajes do Minho, cantando e dançando músicas típicas portuguesas. Muito graciosa, d. Nenê Costa, cantou um desafio com José Galante. (...) Horácio Rodrigues executou fados acompanhados à guitarra por Antônio Pires e ao violão por Santos Moreira”, publicou o Diário de Campinas em 2/5/1933.
            Na última parte da apresentação, o orfeão voltou a cantar em conjunto, foi bisado, com entusiasmo, nas canções Casinha Pequenina e Rapsódia Portuguesa (Nascimento), com arranjos do maestro Manfredini.
            Na manhã seguinte, 30 de abril, defronte ao monumento de Carlos Gomes, os orfeonistas prestaram homenagem ao glorioso maestro, filho de Campinas, depositando uma rica coroa de flores. À tarde, atendendo aos insistentes pedidos, realizaram uma matinê.
            Todos os anos, desde a fundação do Clube em 1920, nunca deixou de ser comemorado, em junho, o Dia de Camões, com exposição de livros, conferências e a presença de altas autoridades. De 1932 a 1936, o grupo regional de danças e o orfeão da entidade, participaram dos festejos camonianos, sempre com destaque.
            Em julho de 1933, o maestro Manfredini, por motivos pessoais, deixou de dirigir o orfeão. Em seu lugar entrou o regente Miguel Izzo, também italiano.
            Em pouco menos de dois anos o Orfeão do Clube Português firmava sua reputação artística e criava fama. Para esse sucesso muito contribuíram os regentes Giuseppe Manfredini e Miguel Izzo.
            A diretoria do Clube Português organizou um piquenique para os membros do orfeão em 27 de agosto de 1933, no clube Aramaçan, em São Bernardo do Campo-SP. A turma tomou um trem especial, às 8 horas, na estação da Luz.
            No mês de outubro de 1933 foram para Santos para novas apresentações.
Segundo o jornal Pátria Portuguesa, existiam na capital paulista quatro centros regionais luso-brasileiros: de Trás-os-Montes, do Douro, do Minho e da Beira. Havia a ideia, por parte do arquiteto Ricardo Severo, de unificar todas estas associações para construírem uma só entidade que seria denominada “Casa de Portugal”.
            Em 6 de julho de 1934, o orfeão se apresentou em uma festa beneficente a Cruz Azul no Theatro Municipal de São Paulo. Seguiram-se dois importantes convites: a  participação do grupo na “Feira de Amostras” no Rio de Janeiro e, em Santos-SP, quando o orfeão foi amplamente festejado pelo público daquela cidade. Miguel Izzo recebeu altos elogiosos pelo seu trabalho como regente. O grupo foi fotografado em diversas poses, como vemos nas fotos incluídas nesta postagem.
As atividades do orfeão permaneceram regulares, com ensaios de novas músicas, até 1936.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

GRUPO FOLCLÓRICO DO CLUBE PORTUGUÊS - década de 1950

"Grupo de Danças Regionais do Clube Português" em 1933. À esquerda, com o rosto circulado está
Maria Antônia da Costa, idealizadora e diretora do grupo entre 1932-1936
           Por volta de 1932, surgiu no Clube Português o “Grupo de Danças Regionais”, organizado pela srta. Maria Antônia da Costa, filha de um importante empresário e sócio, com apoio da diretoria da entidade.
          Maria Antônia da Costa, mais conhecida como Nenê Costa, pode ser considerada agitadora cultural do Clube Português deste período.
            Uma pesquisa feita nos arquivos de recortes de jornais da nossa biblioteca dão conta da atuação deste grupo até o ano de 1936. Desta data até 1947 existe uma lacuna de informações sobre as atividades culturais do Clube.
O grupo regional de danças com 20 pares de dançarinos e mais a tocata. Fotografia de 1933, batida no salão
nobre do Clube Português de S. Paulo. Maria Antônia da Costa está com o rosto
circulado à esquerda da imagem
            O certo é que o “Grupo de Danças Regionais” cessou suas atividades, pois um novo conjunto se formou em 1953, agora intitulado “Grupo Folclórico do Clube Português”.
            Sob a direção de Gabriel dos Santos, o Grupo Folclórico se apresentava nas principais festas da entidade. Durante os festejos juninos, o grupo organizava a dança da quadrilha com muita animação.
            A primeira apresentação do Grupo Folclórico aconteceu em 13 de setembro de 1953 no salão nobre do Clube, à Avenida São João, 126.
            Ernesto Alves do Rego, diretor social da instituição, explicou que as finalidades que inspiraram a criação do conjunto era a exaltação da cultura popular portuguesa em terras brasileiras.
            O autor de muitas músicas e enredos para o grupo era Mário Galo, que durante anos a fio foi o chefe da secretaria do Clube Português.
            A jovem Terezinha Zambo era o destaque como acordeonista, Tostes de Carvalho tocava guitarra portuguesa e o cantador era Ildebarto Leão.
            Outra presença de destaque do Grupo Folclórico do Clube Português ocorreu durante os festejos do IV Centenário de São Paulo em 1954, como vemos nas fotos abaixo.



ORFEÃO DO CLUBE PORTUGUÊS – primeira parte

Recepção a Rainha da Colônia Portuguesa no Brasil, srta. Leopoldina Bello (ao centro), em 18/4/1932.
Ao fundo vemos os membros do Orfeão do Clube Português e convidados

           Idealizado em novembro de 1931 pelo cônsul adjunto de Portugal em São Paulo, Dr. Álvaro Brilhante Laborinho, durante uma conversa com o Dr. José Augusto de Magalhães, cônsul de Portugal.
            Em Piracicaba, interior de São Paulo, já existia um orfeão, que alcançou êxito, sendo o Orfeão do Clube Português o segundo a surgir no estado.
            Após a exposição da ideia a diretoria do Clube, alguns dirigentes convidaram a mocidade portuguesa e paulista, de ambos os sexos, para organizar o orfeão.
            O afamado maestro Giuseppe Manfredini tomou para si a responsabilidade da orientação artística.
            A comunidade lusa na capital bandeirante já estava beirando 60.000 emigrantes. Portugal tem um folclore rico e expressivo, de profunda emotividade. E a proposta do orfeão era exatamente trazer para seus patrícios, saudosos da sua pátria, um pouco da cultura para matar as saudades e, também, estabelecer contato entre os membros da colônia e fortalecer o espírito associativo, cultivando o gosto pela música.
            O grupo foi formado por sócios e não sócios da entidade. Desta segunda categoria, constavam alguns imigrantes que eram trabalhadores braçais do comércio no centro da cidade, onde estava a sede do Clube, que após um dia duro de trabalho encontravam um lenitivo nos ensaios semanais.
            Os membros do orfeão animaram com sua arte muitas festas de caridade, que solicitavam a sua colaboração e promoção.
            A primeira apresentação do conjunto aconteceu no salão nobre do Clube Português, depois de cansativos ensaios, aos 11 de abril de 1932, durante a festa em tributo a “Rainha da Colônia Portuguesa no Brasil”, a srta. Leopoldina Bello, vinda especialmente do Rio de Janeiro, em companhia da Srta. Isalinda Seramota, cantora de fados do rádio carioca. Em seguida, o orfeão tomou parte durante uma conferência sobre literatura no “Dia da Colônia”, em 14 de junho de 1932, também na sede da entidade.
            Seguidamente a formação do orfeão, a srta. Maria Antônia da Costa constituiu o “Grupo de Danças Regionais” do Clube Português. Anteriormente, em várias ocasiões, esposas e filhas dos sócios costumavam organizar um rancho do Minho e outro de Coimbra para se apresentarem em determinadas festividades.
            A menina Zalir Moraes era apaixonada por poesia e cedo revelou-se uma excelente declamadora. Além de fazer parte do orfeão e do grupo de danças, era sempre solicitada como número extra para recitar poesias nas apresentações do Clube.
            Em 7 de setembro de 1932 se deu a maior e mais importante apresentação do Orfeão do Clube Português: no palco do Theatro Municipal. Tratou-se de um recital artístico e beneficente em prol da Cruz Vermelha e da Cruz Azul.


Vários membros do Orfeão do Clube Português após um ensaio, 1932

           O espetáculo foi dividido em três partes, a primeira e a terceira a cargo do orfeão sob a regência do maestro Manfredini, e a segunda constou de guitarradas, versos, cantos e solos de violino.
            Na primeira parte foi apresentado pelo orfeão: 1º. Hino Nacional brasileiro, 2º. A Portuguesa, 3º. São João, Coutinho de Oliveira; 4º. Trovas ao luar, A. Sarti; 5º. Zé Pereira, Armando Leça e 6º. II Ritorno, J. Heine (1818). Na terceira: 1º. Vai falando, A. Sarti; 2º. Canção bisbilhoteira, A. Sarti / G. Manfredini; 3º. Tutú Marambá, Savino de Benedictis e 4º. Aleluia, F. Moutinho / G. Manfredini.
            Na segunda parte foi oferecido ao público solos de guitarra por João Fernandes - que dois anos depois levaria ao ar o primeiro programa de músicas portuguesa do rádio paulistano-, acompanhado por Santos Moreira; declamação de versos de Silva Tavares, Luiz de Freitas Branco, Mário de Andrade e A. Sarti e solos de violino pelo prof. Torquato Amore.
            Este espetáculo repercutiu da melhor maneira possível nos principais jornais e revistas da cidade.

O Orfeão na escadaria do Theatro Municipal de São Paulo. Maria Antônia da Costa está com o rosto circulado. No centro
está o maestro Giuseppe Manfredini

            Em dezembro de 1932, o orfeão foi convidado para realizar dois festival em Santos-SP, no Teatro Coliseu, o mais charmoso da cidade. Seguiram viagem no último comboio da estação da Luz, na noite de 9 de dezembro, o maestro Manfredini, o professor Carlos de Paiva Carvalho, diretor do grupo oral do orfeão, 125 orfeonistas e seus acompanhantes (familiares). O primeiro espetáculo, de gala, aconteceu na noite de 10 de dezembro, contando com uma seleta plateia composta da melhor sociedade luso-santista, o segundo show teve lugar na tarde do dia 11 de dezembro.
            Do programa apresentado constaram páginas musicais dos maiores folcloristas portugueses e brasileiros e, também, alguns trechos de música erudita subscritas por autores de renome.
            Mais uma vez os esforços de Maria Antônia da Costa em prol do conjunto mereceu destaque nas páginas dos jornais santistas: “Habilíssima e paciente preparadora de baile, a srta. Maria Antônia, arranjou números de bailados e cantos como organizadora do elenco de danças regionais, para preencher o programa do grupo de artistas amadores.” (Diário de S. Paulo, 7/12/1932).
CONTINUA...

A Semana Camoniana no Clube Português em 1934

      Constitui uma tradição, desde a fundação do Clube Português, em 1920, as comemorações no mês de junho em tributo a memória de Camões, o maior poeta da literatura portuguesa.
        No ano de 1934, a efeméride contou com uma grande festividade conforme a transcrição da matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 6/6/1934:
       "Prosseguiram ontem, com o mesmo brilho, as solenidades da Semana Camoniana, promovida pelas Escolas da Colônia Portuguesa, com a colaboração das associações lusas de São Paulo.
        À tarde, com a presença do Dr. Murtinho Nobre de Mello, ilustre embaixador de Portugal, tenente Benedicto P. França, representante do Sr. Chefe de Polícia, Dr. Francisco Azzi, diretor geral de ensino, cônsul de Portugal, vice cônsul adjunto, Dr. Carlos Malheiros Dias, Affonso Taunay, Dr. Joaquim Marra, Dr. Ricardo Severo e outras pessoas de destaque portuguesas e brasileiras, deu-se a festiva inauguração da Exposição Camoniana, instalada na Biblioteca Portuguesa de São Paulo, no Clube Português.
        A vasta sala q ue o Clube lusitano da Avenida São João consagrou a essa mostra de livros camonianos apresentava àquela hora um aspecto festivo. Numerosas famílias haviam se reunido no Clube, tomando os seus salões lindamente decorados. Uma orquestra enchia de notas alegres o ambiente.
        Com a chegada do Dr. Martinho Nobre de Mello, foi franqueada a sala da biblioteca e os visitantes puderam apreciar a beleza daquele conjunto. Ao centro da sala, a Cruz de Cristo, constituída por tufos de flores vermelhas e brancas, e separada pelas hastes de cruz das caravelas, as diversas seções do mostruário. Viam-se também, além das obras que ontem enumeramos diversos mármores, bronzes, gravuras antigas, entre as quais uma vista de São Paulo de 1600, e trabalhos recentes, contando-se entre eles o célebre carvão “Camões lendo os Lusíadas”, por Antônio Carneiro.
         O Sr. J. Machado, apresentou os resultados daquela iniciativa improvisada mais acolhida com simpatia por toda parte.
         O embaixador de Portugal saudou aquele esforço, congratulando-se com a colônia lusa desta capital pela sua magnífica realização. Depois aproveitou a oportunidade para despedir-se de seus amigos, pois devia regressar ontem mesmo para o Rio de Janeiro.
          À noite, na velha e tradicional Sociedade Beneficente Vasco da Gama, no Brás, realizou-se uma grande reunião, durante a qual diversos oradores se fizeram ouvir. Abriu-a o Dr. Silva Taveira, cônsul adjunto nesta capital, saudando os portugueses ali reunidos.
           Em seguida, o Dr. Marques da Cruz, diretor pedagógico das Escolas da Colônia Portuguesas de São Paulo, apresentou à assistência o Dr. Maximiliano Ximenes, que iniciou sua conferência sobre “Camões, poeta lírico”. Todos os oradores foram calorosamente aplaudidos pela numerosíssima assistência.
           Seguiu-se o Grupo Regional de Danças do Clube Português que, com o agrado de sempre, fez-se ouvir nas suas deliciosas interpretações. E, assim, a festa prosseguiu ainda por muito tempo, deixando em todos que já estiveram a melhor das impressões. O Sr. Manuel Moraes Pontes, digno presidente da S. B. Vasco da Gama foi de inexcedível gentileza para com seus convidados.
           A propósito da inauguração da Semana Camoniana, o Dr. Malheiro Dias recebeu por intermédio do Dr. Ricardo Severo o seguinte telegrama:

         “Estou aí em espírito, ouvindo sua grande voz rolando na onda camoniana com a mesma grandeza imortal” – Gilberto Amado”.
 Quatro anos antes, em 6 de julho de 1930, foi inaugurado o busto de Camões na Biblioteca Portuguesa de São Paulo (atual Biblioteca João Alves das Neves), de autoria do escultor Rodolpho Pinto do Couto.

PIQUES, O PRIMEIRO MONUMENTO DA CIDADE

Vemos o Piques ao centro em fotografia de 1860. A rua à direita é hoje a Quirino dos Santos e a rua
a esquerda fica ao lado das escadarias de acesso a estação Anhangabaú do metrô

Hoje, quase despercebido pela população que passa apressada pela Rua Xavier de Toledo, o Piques está abandonado a própria sorte. O local é mal frequentado e perigoso. Mas, nem sempre foi assim, como nos conta o escritor Raimundo de Menezes em seu livro “São Paulo dos nossos avós”, Ed. Saraiva, de 1969:
          O Largo dos Piques nasceu com a cidade. Ali se encontrava o chafariz das águas da “cerca dos Padres de São Francisco”, como o chamavam em 1790...
          Há muito tempo, há muito tempo mesmo, era ali, “ao meio-dia, ao som do sobre do sino de São Francisco, no outro lado da encosta”, que se realizava o leilão de escravos”.
          Nenhum outro lugar mais propício, já comentou um cronista. A elevação da subida, com o patamar largo, circundado pelo paredão, punha em destaque a corte enfileirada da mercadoria negra, representada pelos cativos “Paiss-João” e pelas desconsoladas “Mães-Benta”...
          Paulo Cursino de Moura já retratou o momento dramático: “Na hora aprazada, o meirinho do Ouvidor anuncia, solenemente, a manada. Reboliço. Emoção. Os pretendentes, raspando a espora no lajedo, o chicote, batendo a bota luzida, passam em revista os licitados, na atitude de uma arrogância canalha”.
           Começa a licitação. A voz cavernosa do pregão, os lanços vão subindo à medida das simpatias, das aptidões, da saúde, da força bruta ou das habilidades dos negros licitados.
          - Tenho 600$00 pelo Tobias. Ninguém dá mais? É um pechinchão. Abra a boca, negro, mostra os dentes. É de lei, meus senhores, é de lei... Dou-lhe uma...
            A saída, após a arrematação, é o desespero. Pais que separam dos filhos, maridos das mulheres, crianças dos regaços maternos para seguirem, cabisbaixos e mudos, os domos vários que os compram.


Mais uma imagem de 1860, tirada do paredão, atual Rua Xavier de Toledo. Vemos ao fundo a outra parte
da cidade, à extrema direita estão a Igreja e o Convento de São Francisco

E aquilo era quase todas as tardes, ali no Largo dos Piques, quando o sino de São Francisco batia meio-dia. O mesmo espetáculo triste, as mesmas cenas de cortar o coração. Depois... num dia memorável se acabou de vez com aquilo: 13 de maio de 1888!
           O tempo voou. Outros hábitos, outros costumes. A cidade crescendo, progredindo...
           E ali, como um marco histórico, o obelisco, com a sua história. Foi o pedreiro Vicente Gomes Pereira quem construiu o mais antigo monumento que existe em São Paulo. O Obelisco do Piques, houve tempo, mudou de nome. Passou a chamar-se Pirâmide do Piques.
           Erigiram o obelisco em 1814, em “memória” do Governo da Província, chefiado pelo Bispo D. Mateus de Abreu Pereira. Daí o nome que tomou: Largo e Ladeira da Memória, sem nenhuma outra significação. Houve quem grafasse com a maior simplicidade: largo do “Belisco”.
           O engenheiro Marechal Daniel Pedro Müller, segundo nos conta Antônio Egídio Martins, foi, por portaria do Governo Provisório de 26 de agosto daquele ano, encarregado da construção da Estrada do Piques, e, dando execução a esse trabalho, como de outros melhoramentos, no mesmo local, acompanhado de um ofício datado de 17 de outubro que determinava assim: “porque se deve aproveitar para princípio daquele trabalho (pirâmide), que se vai fazer em memória do Governo de V. Exa. e S. Sª., o resto da estação seca deste ano”.
           O Governo Provisório, de que fala o mesmo marechal Müller, era composto do Bispo D. Mateus de Abreu Pereira Ouvidor, D. Nuno Eugênio de Lossio e Scilbz e Chefe-de-Esquadra Miguel José de Oliveira Pinto.
           A Pirâmide do Piques, que se inaugurou no mesmo ano de 1814, foi feita de pedra de cantaria e executada pelo já citado mestre de pedreiro Vicente Gomes Pereira, sob a direção do Marechal Daniel Pedro Müller.


O Largo da Memória em foto de 1920

          O velho jornalista Alexandre Hass deu-nos seu depoimento a respeito: “Foi Müller o realizador das obras da Estrada do Piques, com o seu paredão. O obelisco, ereto em 1814, também partiu de iniciativa sua. Em torno da pirâmide, ora rodeada de alegre paisagem, tudo denotava trato e zelo. Infelizmente, (não é coisa recente) gente inconsciente ou má andou raspando o que ainda se podia ler na inscrição que havia no lajeado. O Marechal Daniel Pedro Müller morreu no dia 1º de agosto de 1841. Foi o seu corpo encontrado junto à ponte do rio Pinheiros. Morreu na Rua Tabatinguera, n. 50, na parte demoninada “Detrás da Boa Morte”, parte esta que, segundo a praxe seguida na época em numeração de casas (número par, à esquerda), devia achar-se uns 150 metros aquém do lugar onde está a Capela de Santa Luzia. Müller construiu ainda o chafariz do Piques. Este se situava na junção da atual Ladeira da Memória com a atual Rua Quirino de Andrade. Formava o mesmo ângulo agudo que hoje forma o banco ladrilho que ali está”.
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O Piques, o primeiro monumento da cidade, em foto atual
O Piques, na atualidade, deixou de ser o que era. Tudo se acabou. Do Tanque Reuno não se tem notícia. O chafariz das águas da “cerca dos Padres de São Francisco” está extinto, há muito tempo. O Anhangabaú, ali por perto, foi enfiado por debaixo da terra. Apenas a pirâmide, a expressar, talvez, um símbolo maçônico, permanece de pé, recordando o passado lembrando tantas histórias...
         Aquilo por ali era desolador: um amontoado de casinholas velhas, quase a caírem, habitadas por gente da pior espécie, de propriedade de padre Pascoal... Esse Padre Pascoal (quem o conheceu? – pergunta Paulo Cursino de Moura) “tinha energias garibaldinas na defesa de seu patrimônio, jamais se receando os baldões de sarjeta das suas inquilinas fúfias o maculassem na via pública, no período em que o Piques, para ser mais alguma coisa, já tinha sido tudo para a cidade antiga, foi o receptáculo da escória”.
        O Padre Pascoal não dava tréguas àquela gente. Batina suja, trescalando a suor, o velho sacerdote italiano saia de porta em porta a cobrar os seus terríveis e desbocados inquilinos, escutando impropérios a cada instante, indiferente aos palavrões medonhos e cabeludos, atento apenas ao dinheiro que amealhava. E aquilo era todo fim de mês.
         Houve também época em que o engraçado “barbeiro” Juó Bananére (Poeta Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, também engenheiro), de tão impagável recordação, manteve, em São Paulo, um jornal de sucesso: o “Abaixo o Piques”. Lembram-se? O “salô” da sua “barbearia” ficava ali bem no centro do largo, “com foro de consulado, centralizando, no dialeto, ítalo-paulista, a fase urbana mais pitoresca de São Paulo”.
         Boas gargalhadas provocou, dos paulistanos de então, o espirituoso engenheiro com as suas tiradas sobre o Piques.
           Em 1908, a Câmara Municipal alterou o nome da ladeira para o de Quirino de Andrade. Sempre eterna mania de destruir as velhas tradições...


Trecho extraído do livro “São Paulo dos nossos avós”, de Raimundo de Menezes, 1969.